Musicoterapia

Musicoterapia

A atividade que utiliza a música como forma de promover a qualidade de vida das pessoas atua como auxiliar na terapêutica de diversos distúrbios físicos ou psicológicos

Priscila Bernardo Mulin

Entre diversas atividades relacionadas ou não à música, a Musicoterapia é uma das que mais são beneficiadas pelo uso do violão. Nesta entrevista, conversamos com uma profissional da área, que nos esclarece sobre como o instrumento é utilizado, quais as vantagens de tê-lo como ferramenta e o que se espera alcançar por meio  dele.

Priscila Bernardo Mulin é graduada em Musicoterapia pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), especialista na área de Saúde Mental/Dependência Química pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e mestre em Educação, Arte e História da Cultura da Por Luis Stelzer Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). Atualmente, é professora titular dos Cursos de Graduação e Especialização em Musicoterapia do Complexo Educacional das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e supervisora da Clínica-Escola de Musicoterapia da mesma instituição. Coordena a equipe de Musicoterapia do Espaço Voice, onde também realiza atendimentos em musicoterapia preventiva com gestantes e adultos em geral.

 

VIOLÃO+: A musicoterapia ainda é um grande mistério para uma considerável parcela da população brasileira, incluindo músicos. Do que trata a área? Está mais ligada à música ou à psicologia?

A Musicoterapia não está diretamente vinculada nem somente a música nem a psicologia. Pode-se dizer que a Musicoterapia é uma profissão transdisciplinar, pois emerge do entrelaçamento de diferentes saberes, especialmente daqueles que dialogam com os campos das artes e da saúde, mas transborda tais conhecimentos, construindo um novo campo de saber, que passa a apresentar características próprias que a delimitam e a diferenciam de outras áreas que têm a música ou a saúde como objeto de investigação e ofício. Então, podemos dizer, que a Musicoterapia é uma profissão da área da saúde que favorece a experiência musical e sonora a fim de promover a qualidade de vida das pessoas. Ela também pode ser utilizada em diversos tipos de tratamento de saúde e na reabilitação de doenças. Parte-se da premissa de que os elementos sonoromusicais são suscetíveis a promover mudanças no indivíduo, influenciando todas as suas capacidades: sensorial, motora, mental, afetiva, criadora, musical propriamente dita, estética, cultural e social. O musicoterapeuta é um profissional que se forma em um Curso de Graduação em Musicoterapia, obtendo a titulação de bacharel em Musicoterapia. A matriz curricular desse curso é híbrida por natureza, por conta da própria característica do surgimento interdisciplinar da profissão. Conta com disciplinas que abrangem três grandes áreas: Científica, Artística e Sensibilizadora. Tais áreas, no entanto, não podem ser consideradas  apenas de forma multidisciplinar, ou seja, cada área isolada em que há uma somatória de conhecimentos.

 

Musicoterapia receptivaViolão+: Como são as principais formas de sessão?

Costuma-se dividir as práticas da utilização desse tipo de terapia em duas grandes vertentes: a receptiva e a interativa. No primeiro caso, o musicoterapeuta proporciona ao cliente/paciente experiências de audição musical. Já na musicoterapia interativa, enfatiza-se o fazer musical, assim o cliente/paciente se expressa por meio de instrumentos musicais, atividades corporais, canto e de toda gama de expressões não-verbais, por experiências de recriação, improvisação musical e de composição. A escolha das experiências musicais a serem favorecidas varia de caso a caso e do objetivo clínico específico, afinal cada pessoa se expressa e percebe a música de forma própria. É o que chamamos de identidade sonora. Essas formas de perceber as sonoridades não estão ligadas apenas ao gosto musical da pessoa, mas também à sua própria condição de percepção do mundo. Uma criança com paralisia cerebral apresentará uma vivência da música completamente diferente de um adulto com depressão, por exemplo. Os objetivos clínicos e as experiências musicais favorecidas serão qualitativamente diferentes ao se considerar as formas de lidar com o mundo dessas pessoas. A criança com paralisia cerebral talvez se beneficie muito mais do aspecto motor e organizador da experiência sonora, ao passo que o adulto depressivo talvez se beneficie muito mais do caráter expressivo e afetivo da vivência musical. A Musicoterapia tem uma abrangência de aplicação muito grande. As principais áreas de trabalho do musicoterapeuta incluem saúde, educação, profilaxia, social e investigativa. É importante ressaltar que a musicoterapia não se trata apenas de atividades musicais isoladas e aleatórias, mas sim de um processo terapêutico, que se constitui ao longo de sessões periódicas com objetivos pré-determinados.

 

VIOLÃO+: O violão está muito presente em suas sessões. Como isso acontece? Em que momentos o violão é uma ferramenta importante em seu trabalho? 

O violão é uma ferramenta essencial. Eu o utilizo em muitos atendimentos que realizo, de diferentes formas e funções. Algumas vezes, toco canções já existentes para que o cliente possa cantar ou tocar junto, ou simplesmente ouvir. Também desenvolvo bases harmônicas para que o cliente possa improvisar vocalmente ou em outro instrumento, ou se expressar corporalmente. Da mesma forma, crio harmonias ou bases musicais para favorecer um processo de composição do paciente. Essas são as maneiras que mais uso, mas o violão pode ser utilizado de formas não convencionais também, servindo, por exemplo, como um objeto sonoro que gera vibração. Nesses casos, ele é utilizado para estimulação sensorial ou tátil que pode gerar relaxamento corporal. Na Musicoterapia, o violão pode ser utilizado tanto pelo musicoterapeuta quanto pelo cliente. É interessante que, muitas vezes, ele representa algo a mais do que um simples instrumento musical, servindo como um símbolo ou uma representação de outras pessoas ou situações. Uma vez, por exemplo, trabalhei com um menininho autista cujo pai era representado pelo violão. Ele sentia muita falta do pai, pois não moravam juntos. Nas visitas que o pai lhe fazia, ele usava o violão para cantar e se comunicar com o filho. Quando ele começou a vir para as sessões de musicoterapia, algumas vezes ele trazia o pequeno violão que o pai lhe deu de presente. E nas sessões em que o violão estava presente, o clima era bastante tenso e o menino ficava agitado.  Eu não podia chegar perto do violão. O menino, por sua vez, tirava o violão da capa e o agredia, batendo e chutando o instrumento. Quando o violão dele não estava presente, ele parecia menos agitado e eu podia utilizar o meu violão para tocar músicas que ele gostava. Ele se aproximava e colocava a mãozinha no violão emitindo algumas vocalizações e movimentos corporais. Com a continuidade do processo musicoterapêutico, ele deixou de utilizar o seu violão de forma agressiva e passou também a utilizá-lo como um meio de expressão, tocando suas cordas e vocalizando junto.

 

VIOLÃO+: Qual sua formação musical? Você estudou muito violão para poder usá-lo como ferramenta de trabalho? Em que medida a música clássica tem entrado nas suas sessões? E a música popular, também tem espaço?

Meu primeiro contato com o violão foi aos nove anos de idade com uma professora particular. A partir daí me apaixonei e nunca mais larguei. O contato com o violão me instigou a querer conhecer e estudar mais música, me levando a fazer aulas de canto, teoria musical, percepção, história da música, harmonia, estética musical, tanto particulares quanto em escolas onde meu violão toca de música. Naturalmente meu estudo de violão teve que ser adaptado à Musicoterapia. Digamos que a matéria musical é a mesma, mas a forma de utilização do violão é mais livre e espontânea, especialmente em relação às posturas na hora do executar o instrumento. Na Musicoterapia, muitas vezes, tocamos de pé, sentados no chão, ou de qualquer outra forma que for necessária para acessar o paciente. Na execução do violão nas sessões de Musicoterapia, a música que mais utilizo é a popular, tanto pela demanda de meus pacientes quanto pela minha formação, que é primordialmente essa. Estudei pouquíssimo violão erudito, apesar de gostar muito. Mas utilizo muitas gravações de quartetos e duos ou de violão-solo quando trabalho com experiências receptivas. Também já trabalhei tocando e compondo peças simples em duo de violões com dois pacientes, ambos esquizofrênicos: um tinha sido músico profissional e outro amador, antes de a doença desencadear. Trabalhar duos de violão foi essencial para organização psíquica de ambos.

 

União Brasileira de Associações de Musicoterapia

Musicoterapia

Musicoterapia é a utilização da música e/ou seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) por um musicoterapeuta qualificado, com um cliente ou grupo, num processo para facilitar e promover a comunicação, a relação,a aprendizagem, a mobilização, a expressão, a organização e outros objetivos terapêuticos relevantes, no sentido de alcançar necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas. A terapia objetiva desenvolver potenciais e restabelecer funções do indivíduo para que ele possa alcançar uma melhor integração intra e interpessoal e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida, pela prevenção, reabilitação ou tratamento.

Fonte: União Brasileira de Associações de Musicoterapia
www.musicoterapia.mus.br

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